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Venezuela e a Nova Economia Política do Poder

 Introdução: economia, poder e narrativa


A acusação formal apresentada pelos Estados Unidos contra Nicolás Maduro, presidente da Venezuela, sob a alegação de envolvimento com o narcotráfico internacional, insere-se em um contexto que extrapola amplamente o campo jurídico ou criminal.


Embora a retórica oficial sustente fundamentos relacionados ao combate ao crime organizado e à defesa da democracia, uma análise sob a ótica da economia política internacional revela motivações substancialmente mais amplas e estruturais.


Historicamente, grandes disputas internacionais raramente se explicam apenas por princípios morais ou jurídicos. Em geral, tais elementos funcionam como narrativas legitimadoras de interesses econômicos, estratégicos e geopolíticos. No caso venezuelano, a centralidade do petróleo, a posição geográfica do país e sua aproximação com potências rivais dos Estados Unidos colocam a Venezuela em um ponto sensível do sistema internacional.


O cenário atual sugere que o mundo atravessa um processo de reorganização da ordem econômica global, com características que remetem à Guerra Fria, porém sob uma configuração distinta: um sistema multipolar, no qual três grandes potências — Estados Unidos, China e Rússia — disputam áreas de influência econômica, política e militar.


A ascensão chinesa e o desafio à hegemonia econômica norte-americana


A China representa o principal vetor de instabilidade da hegemonia econômica construída pelos Estados Unidos nos últimos anos, e isso começou a incomodar Washington. Em poucas décadas, o país transitou de uma economia essencialmente agrícola e periférica para uma potência industrial, tecnológica e financeira.


Do ponto de vista econômico, a trajetória chinesa é singular:


  • crescimento acelerado do Produto Interno Bruto,

  • forte expansão do comércio internacional,

  • integração estratégica às cadeias globais de valor,

  • e crescente internacionalização de seus investimentos.


Embora os Estados Unidos ainda detenham o título de a maior economia do mundo em termos absolutos, o avanço chinês gera uma perda relativa de poder, conceito central na análise das transições hegemônicas. Mais do que números absolutos, o que preocupa Washington é a capacidade chinesa de influenciar fluxos comerciais, financeiros e produtivos, especialmente em regiões historicamente sob influência norte-americana.


Nesse sentido, a política externa do governo Donald Trump deve ser compreendida como uma tentativa explícita de conter a expansão chinesa, utilizando instrumentos econômicos: como tarifas e sanções, mecanismos políticos e em último caso seu poderio militar.


O petróleo venezuelano como ativo estratégico


A Venezuela ocupa posição central nesse rearranjo por deter as maiores reservas comprovadas de petróleo do planeta. Ao longo do século XX, esse recurso foi o principal motor da economia venezuelana e elemento fundamental de sua inserção no cenário internacional.


Durante décadas, empresas norte-americanas e europeias desempenharam papel relevante na exploração, refino e comercialização do petróleo venezuelano. Esse arranjo contribuiu para um período de prosperidade relativa ao povo da Venezuela, o país apresentou elevados níveis de renda per capita, moeda valorizada e expansão do consumo.


Entretanto, com a a ascensão do chavismo ao poder, no final da década de 1990, representou uma inflexão profunda na trajetória econômica e institucional da Venezuela. Hugo Chávez chegou à presidência amparado por um discurso fortemente nacionalista, anti-imperialista e crítico ao capital estrangeiro, especialmente às grandes corporações multinacionais do setor energético. Sob a retórica de recuperação da soberania nacional, o novo governo promoveu uma ampla reconfiguração do marco regulatório do petróleo, ampliando o controle estatal e reduzindo drasticamente a participação privada.


Esse processo culminou na estatização efetiva da indústria petrolífera, com a reestruturação da PDVSA (Petróleos de Venezuela S.A) e a expulsão ou expropriação de diversas empresas multinacionais que atuavam até então no país.


Companhias norte-americanas e europeias, que haviam investido bilhões de dólares em exploração, refino e infraestrutura, sofreram perdas expressivas, muitas vezes sem compensação nenhuma. Do ponto de vista econômico, esse movimento gerou um choque negativo imediato de investimentos, além de uma ruptura na transferência de tecnologia e na formação de capital humano especializado. Do ponto de vista social, houve uma drástica redução na renda nacional, desempregos, fome e instabilidade.


É justamente esse histórico que ressurge, de forma explícita, no discurso do presidente Donald Trump ao afirmar que os Estados Unidos pretendem “trazer de volta o petróleo que foi roubado da América”. A declaração não se refere apenas ao recurso natural em si, mas aos ativos, investimentos e posições estratégicas perdidos pelas empresas norte-americanas durante o ciclo de nacionalizações promovido pelo chavismo.


Assim, o petróleo venezuelano assume não apenas valor energético, mas também valor simbólico e geopolítico, associado à reversão de perdas econômicas acumuladas ao longo de duas décadas e, conforme o governo Donald Trump, o uso de força militar é totalmente justificável.


O Brasil também se insere nesse contexto. A Petrobras manteve operações e investimentos relevantes na Venezuela antes dos anos 90, especialmente por meio de participações em projetos de exploração e refino em parceria com a PDVSA. A deterioração institucional do país, somada ao colapso operacional da estatal venezuelana, resultou em prejuízos bilionários para a empresa brasileira. Estimativas amplamente divulgadas ao longo dos últimos anos indicam que as perdas da Petrobras com ativos na Venezuela, incluindo participações em refinarias e projetos de exploração, alcançam valores da ordem de bilhões de dólares, refletindo tanto expropriações quanto a impossibilidade de repatriação de dividendos e créditos. Tais valores, dificilmente poderão ser retomados aos cofres da Petrobrás, configurando um grande prejuízo à empresa.


Nesse ambiente, a estatização ampla do setor, a politização da gestão da PDVSA e o afastamento de capitais e tecnologias estrangeiras produziram um colapso estrutural da capacidade produtiva venezuelana. A situação foi agravada pelo fato de que o petróleo do país é majoritariamente pesado, exigindo elevados investimentos, tecnologia avançada e know-how especializado, elementos que se tornaram escassos após o rompimento com empresas internacionais.

 

Narcotráfico e instrumentalização jurídica


A acusação de narcotráfico contra Nicolás Maduro e sua esposa deve ser analisada menos como causa e mais como meio. No campo da economia política, é recorrente o uso de dispositivos jurídicos como instrumentos de pressão econômica e geopolítica.


O discurso do governo Donald Trump, logo após a captura do Nicolás Maduro e sua esposa, reforça essa leitura ao enfatizar a necessidade de recuperar ativos econômicos, especialmente no setor energético, e ao estender suas ameaças a outras economias da América Latina, sobretudo a Colômbia.


O que chama a atenção é a ausência, eu seu discurso, de referências consistentes à reconstrução institucional e política da Venezuela ou ao bem-estar de sua população, o que sugere que tais questões não ocupam posição central na estratégia norte-americana, portanto, em nenhum momento houve uma luta pró democracia.


Além disso, a postura do governo Donald Trump abertamente contrária às políticas ambientais multilaterais, evidenciada, entre outros, pela retirada dos Estados Unidos do Acordo de Paris e pelo enfraquecimento de compromissos internacionais relacionados à transição energética, confere ao petróleo venezuelano um valor ainda mais estratégico dentro de sua agenda econômica.


Ao rejeitar a centralidade das energias renováveis e defender a expansão do uso de combustíveis fósseis, o governo Donald Trump posicionou-se deliberadamente na contramão das principais economias desenvolvidas do mundo, que passaram a incorporar metas ambientais como elemento estruturante de suas políticas públicas e industriais.


Essa escolha não deve ser interpretada apenas como divergência ideológica, mas como uma decisão econômica e geopolítica. Ao priorizar fontes energéticas tradicionais, os Estados Unidos buscavam preservar vantagens competitivas associadas à sua infraestrutura produtiva, reduzir custos energéticos domésticos e assegurar autonomia estratégica no fornecimento de energia.


Nesse contexto, o petróleo venezuelano, abundante, geograficamente próximo aos Estados Unidos e historicamente integrado ao sistema energético norte-americano, adquire relevância singular, funcionando como ativo capaz de sustentar uma estratégia de expansão econômica baseada em energia fóssil, mesmo diante da crescente pressão internacional por descarbonização.


A América Latina no novo tabuleiro geopolítico


A crescente presença chinesa na América Latina constitui um dos principais pontos de atenção no sistema internacional contemporâneo. Nos últimos anos, a China tem intensificado seus investimentos diretos em infraestrutura, energia e financiamento estatal, financiando portos, ferrovias, sistemas logísticos e outros grandes projetos, que ampliam sua influência regional, comercial e criam novas ligações econômicas entre a Ásia e o Hemisfério Sul.


Os números confirmam essa tendência de expansão econômica chinesa. Em 2024, o volume total de comércio entre a China e a América Latina atingiu cerca de US$ 518,47 bilhões, registrando crescimento anual e consolidando-se como parceiro comercial relevante para diversos países da região.


Dados mais amplos demonstram que o comércio bilateral tem se mantido em níveis historicamente elevados, refletindo tanto a exportação de manufaturados chineses quanto a importação de commodities latino-americanas, que agora incluem veículos agrícolas, petróleo, minério e produtos alimentícios.


Especificamente no caso do Brasil, seu o maior parceiro comercial na América Latina os fluxos comerciais cresceram substancialmente nos últimos anos, com exportações e importações que representam uma parcela significativa das relações econômicas bilaterais e reforçam a interdependência estrutural entre Pequim e Brasília. Basta olharmos nas ruas e vermos a crescente de veículos elétricos chineses que até alguns anos atrás sequer existiam em nosso pais e agora se tornaram uma constante e já configuram entre os mais vendidos.


Esse processo comercial e de investimentos tem implicações que vão além de meros números. Ao fortalecer os laços econômicos por meio de infraestrutura e comércio, a China não apenas diversifica seus mercados, mas também reduz a dependência de parceiros tradicionais, como os Estados Unidos, e estabelece plataformas de influência que podem ser ativadas em contextos políticos e estratégicos, ou seja, quase um "xeque-mate".


Essa expansão econômica é percebida por Washington como um desafio direto à sua antiga zona de influência na América Latina, pressionando os Estados Unidos a repensar suas estratégias de engajamento regional.


A reação norte-americana à crescente presença chinesa na América Latina tem se manifestado por meio de uma ampla gama de instrumentos de política externa, incluindo a imposição de tarifas comerciais mais elevadas sobre importações estratégicas, a adoção de sanções econômicas unilaterais contra países e agentes considerados adversários, a intensificação da pressão diplomática sobre governos alinhados com Pequim, bem como, em ocasiões extremas: a demonstração de força militar e operações diretamente vinculadas à segurança regional e à proteção de interesses estratégicos.


No âmbito comercial, Washington tem utilizado tarifas como ferramental para pressionar mercados e governos, inclusive sobre países latino-americanos que mantêm relações comerciais intensas com a China, numa tentativa de redirecionar fluxos econômicos para o eixo norte-americano e conter o avanço chines na região.


Em paralelo, sanções financeiras e bloqueios econômicos, aplicados isoladamente por decreto presidencial, têm sido implementados contra figuras políticas e empresas estatais de países considerados próximos à China, especialmente em setores sensíveis como energia e tecnologia.


Já no plano diplomático, a Casa Branca tem intensificado a retórica oficial e gestos simbólicos de reafirmação de proeminência regional, ao mesmo tempo em que pressiona governos latino-americanos a limitarem ou revisarem acordos e projetos de infraestrutura vinculados a empresas chinesas.


Sob essa perspectiva ampliada, a Venezuela, historicamente um dos principais parceiros comerciais da China na região em termos de energia e financiamento, tem sido utilizada como um caso demonstrativo do custo político, econômico e diplomático de um alinhamento excessivo com Pequim.


As pressões sobre Caracas enviam um sinal claro a outros países latino-americanos: que a manutenção de relações demasiado estreitas com a China pode atrair retaliações econômicas, isolamento político, revisões de acordos comerciais e de investimento por parte dos Estados Unidos e em último caso: ações militares.


Trata-se, em última instância, de uma estratégia clássica de contenção, no qual instrumentos de poder econômico, político, militar e diplomático são articulados de forma integrada para preservar influência regional frente à concorrência emergente de uma potência que alia mobilidade econômica, créditos estratégicos e presença crescente em setores críticos da economia latino-americana.


Conclusão: um ensaio sobre poder, não sobre moral


O caso venezuelano evidencia que a atual dinâmica internacional não pode ser compreendida a partir de categorias morais simplificadoras, como democracia versus autoritarismo ou legalidade versus crime. Essas narrativas ideológicas cumprem função retórica, mas não explicam os movimentos estruturais em curso.


Não se trata, portanto, de endossar ou legitimar o posicionamento adotado pelo governo do presidente Donald Trump. Não, eu não endosso: sua atuação no cenário internacional caracteriza-se por métodos frequentemente arbitrários, unilaterais e intimidatórios, que extrapolam princípios do direito internacional, recorrendo à ameaça direta a líderes estrangeiros, à imposição de sanções econômicas extraterritoriais e, em última instância, à mobilização de uma máquina militar de alcance global, com pouca ou nenhuma consideração explícita pelas vidas das populações locais. Tal postura é amplamente questionável sob a ótica normativa, ética e institucional.


Contudo, uma análise econômica e geopolítica séria exige ir além do julgamento moral imediato de suas ações. Donald Trump não atua de forma errática ou desprovida de racionalidade estratégica. Ao contrário, sua trajetória política e empresarial revela um empresário pragmático, sempre orientado por objetivos claros e buscando maximizar seus interesses pessoais, ainda que por meios controversos. Suas ações no plano internacional obedecem a uma lógica muito bem definida, na qual cada movimento, por mais duro que pareça, responde a cálculos econômicos, energéticos e geopolíticos muito bem definidos. Ignorar tais fatos equivale a subestimar a complexidade de suas ações e, sobretudo, reduzir a análise a uma leitura superficial, ideológica e incapaz de explicar as reais motivações por trás de suas decisões.


Agora, a postura ambígua de países como o Brasil revela as dificuldades enfrentadas por economias médias em um ambiente de crescente polarização internacional. Discursos de soberania nacional e de defesa da democracia convivem com alinhamentos contraditórios a líderes de regimes ditatoriais, expondo fragilidades estratégicas e, possivelmente, a ausência de um consenso diplomático claro.


Em última instância, o sistema internacional atual assemelha-se a um jogo de xadrez econômico multipolar, no qual Estados Unidos, China e Rússia disputam não apenas territórios, mas fluxos de capital, energia, tecnologia e influência política.


Nesse contexto, compreender a lógica econômica e política subjacente aos discursos e às ações desses três grandes países constitui condição essencial para qualquer análise séria do mundo contemporâneo.


Resta, portanto, a indagação: qual será a próxima jogada desses atores no tabuleiro geopolítico internacional?

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